Chegou finalmente o dia em que foi possível realizar uma verdadeira caminhada Serrana!
O plano inicial seria atravessar uma grande parte da Serra do Gerês, começando nas Lagoas do Marinho terminando em Pitões das Júnias. A ideia e o desafio foi lançado pelo nosso amigo João Miguel, seria apenas preciso alguém que nos levasse às lagoas e outra pessoa que pudesse ir buscar-nos a Pitões, mas aqui só teríamos a boleia por volta das 20h:30, o que já seria muito tarde para nós, pois os nossos compromissos familiares sobrepunham-se a tudo o resto, e assim sendo eu e Orion optamos por alterar os planos quase no final da semana.
Os companheiros J. Miguel e Nuno mantiveram a ideia inicial, nós iríamos fazer outro percurso, circular, e com um pouco de sorte encontraríamos-nos a meio do trilho.
O nosso circuito seria: Pitões da Júnias-Fonte Fria--Fraga do Paúl-Cornos de Candela-Fraga S. João- Mata do Beredo-Pitões. E cá vamos nós!
Passámos por meia dúzia de habitantes e quase uma dúzia de cachorros, ainda com um ar de começo do dia e meios desconfiados da nossa presença.
Abastecemos o cantil e as garrafas na fonte ao lado do café Rato do Eiró e abalámos rumo a uma das estradas que dá acesso às vacarias já afastadas da aldeia.
Fizemos uma primeira observação aos mapas com atenção, apanharíamos um pouco mais à frente a estrada que dá acesso a Espanha e pouco mais virámos à esquerda para um caminho de terra batida, a porta de entrada que me levaria finalmente àquilo que chamo de Serra no seu estado bruto e puro onde tenho sempre o privilégio de puder percorrer.
Este caminho inicial foi acompanhado de campos de centeio e carvalhais quase sempre do lado oposto. Tínhamos como companheiras, graciosas borboletas coloridas dançando a valsa das flores acompanhadas do grupo coral da passarada.Um belo começo!!
Ao longe já se avistava a Fraga da Espinheira, muito bem enquadrada bem no centro do nosso caminho. Passámos um pequeno ribeiro, um de muitos neste dia. Os mapas continuavam a ser os nossos guias, mas os nossos instintos na montanha começam cada vez a ficarem mais apurados!
Fizemos uma paragem técnica antes de começar a subir mais, tirei uma das botas e ajeitei a costura da grossa meia que estava magoando um dedo do meu pé, curiosamente o mesmo pé em que parti um dedo à 2 meses atrás. Passei a mão pelo dedo ainda um pouco sensível, sorri por puder estar ali e desejei que o mesmo se portasse bem neste dia que tanto ansiava!
Rumo à Fonte Fria! Lá vamos nós sempre a subir!
Tudo me distraía e me chamava, preenchendo-me de uma enorme satisfação! As borboletas não paravam de nos acompanhar, as pequenas flores aqui e ali, as pedras graníticas, a terra as montanhas à nossa espera e o céu azul com tímidas pinceladas de branco!
Queria correr, saltar, soltar a voz e voar!! Tinha ainda muito pela frente e as energias teriam de ser poupadas!
Que prazer em partilhar tudo isto com vocês, queridos amigos e leitores!!
Já num ponto mais acima com as grossas pedras e penedos robustos, bem característicos deste Gerês, fizemos uma pequena pausa para encher o peito de ar puro e tirar umas fotos.barragem da Paradela, S. João das Fragas ali ao fundo a espreitar...algumas mariolas presentes, seguimos o seu rasto e logo mais à frente o verdadeiro espectáculo natural começava! A Fraga de Brazalite, vaidosa e fotogénica já se via! Era um ângulo desconhecido para nós mas a montanha era inigualável e não dava para confundir com alguma outra!
Estava ali bem à nossa frente, parecendo estar perto mas ainda muito longe.
Ah! Serra! Bem tu és também uma paz, um alívio certo para mim! Bem vinda ao meu olhar, ao meu olfacto, tacto e audição!!
Olhem só! Uma bela manada de cavalos lá em baixo no vale, à sombra de meia dúzia de carvalhos! Belos bichos que logo dando conta da nossa presença, embora longe, desataram a trotar em sincronia levantando poeira em seu redor, e o eco das patas a bater no solo, crescia da terra ao céu! Um espectáculo selvagem!!
Pararam mais à frente... penso que ficaram aborrecidos com a nossa presença, não deixávamos de ser uns intrusos. Embora afastados estavam perto do trilho por onde precisávamos de passar...Tentámos apressar o passo suavemente, Orion fez questão de parar um pouco para captar o momento mais de perto, um dos cavalos relinchou, agitou a cauda e bateu com as patas, tornando a restante manada mais inquieta. Não dava para perceber o que combinavam entre si, mas já olhava em redor a ver para onde havia de fugir caso algum deles viesse atrás de nós . Disse a Orion para se despachar, estava a arriscar demasiado...
Cruzámos mais uma linha de água arborizada e fresca. Orion estava a ficar aborrecido com a sua máquina que não correspondia ao que pretendia captar!E eu apesar tendo a minha a funcionar bem, não me ralava para as tecnologias que não substituíam o que presenciava e sentia no momento, estava demasiado feliz! Claro está que agora estou a usufruir das tecnologias, caso contrário não estaria aqui a registar e divulgar isto tudo!!
Brazalite estava já ao nosso lado mas ainda bastante distante, seguimos a direcção da Fonte Fria, colina acima a corta mato, nem mais! Possivelmente havia trilho mais fácil por ali, mas os fetos estavam altos e viçosos, tapavam as vistas, e para além do mais, corta mato não tem sido obstáculo para nós e até gosto pois consigo sentir um contacto mais directo com a Natureza no seu estado selvagem, quase virgem!
Apanhámos já em cima e mais à frente um percurso muito idêntico, senão para dizer o mesmo que fizemos em Abril passado. Lembrei-me de Águia Real, White Angel e todo o pessoal que fazia parte daquele inesquecível dia. Lembrei-me quando White Angel apontou com o bastão e me ensinou o nome das montanhas: Fonte Fria, Brazalite, Roca Sendeia...
Agora era caminhar em direcção à Fonte Fria e subir ainda mais. Mas primeiro procurávamos a água que nascia perto da Fonte Fria, aquela deliciosa água que abastecemos enquanto Águia Real lia um poema de Torga. Onde seria a fonte natural? Mias uma vez o meu instinto conduziu-me e acertei com satisfação, enchi mais uma garrafa de litro e meio após provar a mesma, estava tão fresquinha!!!!!!!! Tão saborosa, a correr naquelas pequenas pedras, acho que ganhei alguns meses mais de vida!
Depois foi só subir, subir. Não utilizei o bastão, antes disso calcei umas luvas e trepei encosta acima, contactando com a carqueja e as giestas. Pouco mais e dei comigo a calcar tudo com uma raiva acumulada que ia saindo lentamente de mim...tropecei, levantei-me e persisti, continuava a descarregar tudo aquilo na minha serra, o coração acelerava e a respiração começava a sufocar-me. Soltei como que um latido de um animal ferido, encostei-me a uma grande pedra, deixei-me escorregar até ficar sentada...sentia como se tivesse uma corda a apertarem-me a garganta, tensa de emoção, fiquei entalada e com dificuldade de respirar...a ansiedade estava a tomar conta de mim, tinha de lutar com ela! Precisava de chorar...e chorei!!
Chorei de alegria de tristeza de saudade e de raiva! Sentia-me tão bem ali, e ali não podia ficar eternamente! Queria que tudo parasse, queria mudar tudo...e já não sabia o que queria de mim...
Orion ficou a meu lado e acalmou-me tentei explicar-lhe a ideia que precisava de abrandar, de saborear de calma. As saudades daquele local eram muitas, não queria marcar passo de corrida, queria saborear cada centímetro, metro e Km percorrido. Orion compreendeu e reconheceu que para ele era mais um trilho mas que para mim que estive algum tempo parada, era como se da primeira vez se tratasse e sabia-me tão bem.
A brisa da montanha chicoteava-me a face e me beijava um simultâneo para além de me limpar as lágrimas.
Ficámos ali parados durante o tempo necessário até me acalmar e receber um beijo do meu guerreiro e meu corpo adormeceu.
Acabámos a subida, procurámos uma sombra debaixo de uma grande pedra inclinada e almoçamos tranquilamente na companhia de umas formiginhas que passavam num carreiro ali perto. Fiz questão de deixar umas migalhas para as mesmas, naquele local.
Bem e já cá temos um longo texto, não tenho cura mesmo!
Estávamos na fronteira agora, onde nossos pés pisavam ora Portugal, ora nossa única vizinha, Espanha . Mas ali no alto pouco importa a nacionalidade, é tudo tão belo, tudo é Gerês ou Xurés! Uma neblina serrana depositada ao fundo do lado do Lindoso, parecia vir na nossa direcção, ameaçava mudança de tempo, mas não passou disso.
Avistámos mais duas manadas de cavalos e gado bovino à mistura, em plena serra no topo do mundo! Tudo era perfeito!
Continuámos com a ânsia de apressar o passo e descobrir o que haveria do outro lado das montanhas! A Fraga do Paúl já se avistava e um vale muito verde lá em baixo...à nossa espera...
Já no vale muito arborizado, surgia timidamente um ribeiro à frente, que ia alargando e serpenteando o vale. Um pequeno carreiro de pé posto acompanhava o mesmo e toda a vida circundante, até onde pudemos caminhámos sempre, vendo água, pedras, fetos, lamas, areia, carqueja, amieiros, carvalhos, libélulas e borboletas e cobria tudo aquilo de versos e de espanto! Mas que o pequeno carreiro ao fim de muitos metros sem mais nem menos, desapareceu! E agora? Vegetação por todo o lado! à nossa frente do lado direito e esquerdo, com declives!Passámos para o outro lado do ribeiro, mas o panorama não era melhor!olhámos para cima na tentação de subir, para dali sair, mas a vontade estava fraca perante aquela cena de pedras e mato selvagem!
Bom ali estávamos, e dali teríamos que sair, voltar para trás estava fora de questão, e para a frente é que é o caminho!
E lá avançamos, ora do lado esquerdo, ora do direito, conforme desse mais jeito, ou conforme o parecesse, sempre procurávamos a melhor forma de avançar mais uns preciosos metros! Parámos por duas vezes, uma para refrescar a cara, outra para refrescar os corpos quentes e suados, uma prenda de compensação por todo aquele esforço de matagal interminável.
Após uns avantajados metros de trilho selvagem e duro, talvez viesse o anjo da visita e trouxesse-me uma terra firme e segura para continuarmos a prosseguir com a nossa pequena "viagem". E assim foi.
As vozes das montanhas chamávamos-nos e nós seguimo-las.
Ah serra! És a graça da vida em toda a parte! És o sorriso das pedras, aquele alimento de quem farto de pão, ainda faminto!
Famintos seguíamos, exaustos do percurso da ribeira do Paúl, mas com toda a força ainda acumulada, e quando avistámos os Cornos de Candela e estudávamos ao longe a melhor trajectória para subir o mesmo, o telemóvel toca, tínhamos rede, era o J. Miguel! Já se encontravam na Fraga de S. João, junto á capela! Boa rapazes! Conseguiram fazer o percurso sozinhos e estavam bem!
Ficámos combinados de os mesmos seguirem até Pitões e lá nos encontraríamos. Pena aquele contratempo no ribeiro de Paúl, se não fosse isso teríamos-nos cruzado, quase certeza!
O meu desejo de subir até aos Cornos Candela ficou adiado, virámos em direcção de S. João, não subimos à fraga, contornámos a mesma e mais um matagal nos esperava, quase que diria que hoje era o trilho dos corta matos!
Passámos a ponte do Pereira e pouco mais fazíamos uma pequena parte da mata do Beredo, muito limpinha, fresca e verde!
Terminando este pequeno percurso aprazível, começa a subida da estrada até à aldeia de Pitões, uma autentica via sacra para qualquer caminheiro um fim de muitos Kms nas pernas! Que tortura! Só sonhava com a fonte já quase no fim do percurso, já delirava com a mesma!
Ei-la finalmente! Um oásis no fim de uma longa subida!Refresquei-me molhei os cabelos, fiquei quase nova!
O ponto de encontro foi no café/restaurante "O Preto", onde já aguardavam os corajosos exploradores J. Miguel e Nuno! Parabéns companheiros!
Umas belas goladas numa cervejinha fresquinha, uma troca de conversa e experiências vividas nesse dia, tudo demasiado rápido, tínhamos de partir pois ainda tínhamos 2 horas de caminho até casa, despedimos-nos com muita pena nossa e a promessa de combinarmos uma futura caminhada!
Ainda fomos rapidamente encher uns garrafões de água da fonte para consumo em casa, enquanto Orion o fazia, eu corri até à pequena e discreta padaria da aldeia, onde vende a broa de mistura mais saborosa que comi até hoje. Comprei quatro! Para nós e para os que me são queridos!
Partimos deixando a aldeia e a serra para trás...o sol do fim do final da tarde pintava os campos de amarelo ocre, uma pequenina triste saudade já me consumia muito devagar, o ar que respirava muito fresco e saudável, tornaria-se em breve irrespirável e cinzento, e o solo que iria pisar seria uma espécie de areia movediça onde ficarei à espera de alguém que me puxe e me liberte novamente.
E enquanto isso vou continuar recordando um sonho de um desejo tão forte, como ingerir um pedaço de um pão amassado pelas mãos de um anjo selvagem, esperando saciar a minha fome pelas montanhas do Gerês!

