" Paz das montanhas, meu alívio certo! "

21/02/2012

Vilarinho da Furna

Submersa pelas águas do rio Homem, aconchegada à Serra Amarela, jaz submersa uma das aldeias mais polémicas do Parque Nacional  Penada Gerês - Vilarinho da Furna.


A albufeira  de Vilarinho que hoje predomina foi outrora um pequeno rio que atravessava um vale entre a Serra do Gerês e a Serra Amarela. Neste vale germinava uma aldeia comunitária longe do mundo, cujo o destino era a sobrevivência dos seus habitantes, e que por desejo soberbo dos tempos modernos, quis o dito homem civilizado  construir um gigantesco muro impedindo as águas de circularem livremente, e retirar, hipocritamente a bem,os furnenses, da sua aldeia que os viu nascer! 


Foi das últimas barragens a serem construídas em terras geresianas, foi inaugurada a 21 de Maio de 1972, e a sua função era diferente das outras.
Como não tem aproveitamento hidroeléctrico tem como objectivo criar uma reserva de água que é conduzida até à Caniçada através de uma grande conduta e que por sua vez seria bombeada de novo para a albufeira de Vilarinho.



Estranho e cruel fim para os  seres humanos que habitavam este cantinho entre Serras, resta a esperança de um dia este muro, como todos os outros muros, se desfazer e a própria natureza se vingar do betão que a mão humana estruturou e realizou, como se de uma grande obra se trata-se...

A terra está lá,  ainda continua por lá,  sendo uma propriedade dos antigos habitantes de Vilarinho da Furna. Verdade! Está registada na conservatória como tal! E tudo o vento pode levar, menos a terra, que embora submersa pelas águas do rio homem, de vez em quando uma parte das suas pedras, já mais que lavadas, espreita os raios solares, os mesmos que a viu um dia nascer, e  aguardam silenciosamente,  quem sabe pelo seu renascimento...

Corre o menino no caminho que o leva à aldeia,  seus pais lhe disseram que por ali já houve meninos como ele...e que corriam também.

E depois de 20 minutos de carreiro eis que surge, quase do nada, um cenário de fazer doer a vista!




Um cenário de guerra entre a paisagem e a natureza humana!

Um belo exemplo em como o poder do homem continua a sobrepor-se a tudo o resto, mas com o seu limite...

Um dia ou uma noite, será indiferente, a força das águas tomará o seu rumo natural e os nossos descendentes começarão a cultivar novamente as terras!













 

E a criança pergunta:

Mãe, afinal o que existe aqui?!













E ela responde:


Meu querido! Aqui já só existem  sombras, quando a 

terra deixa as flores germinarem!!















Existe um lençol de água, a cobrir as 

chorosas pedras com saudades das 

suas crianças!














Existe  um  pequeno rio, rio de Furnas, que ainda mata a sede da aldeia fantasma!










E sempre temos as pequenas pedrinhas que podemos  utilizar para adornar o solo e esperar que por aqui possam brincar mais meninos como tu!!


"Habitando a crosta do mundo, a criatura humana sabe que, ao chamar seu a um chão, está a laborar numa fantasia. As cadeias de montanhas e seus vales estendem-se, indiferentes e maiores do que os limites que o homem traça nos seus projectos mais desmesurados, e mesmo a mais singela erva se insinua por sob as suas construções mais portentosas, impondo sempre uma vigilância sobre a possibilidade de ruína. No entanto, e de certo modo paradoxalmente, as edificações votadas ao abandono revestem-se de uma beleza particular, porque na sua decadência repleta de musgos, silvedos e destroços parecem finalmente inscrever-se na própria natureza, tornando-se parte do mundo natural, eterno e imemorial."

                                                                                   Rio Homem - André Gago






Requiem

Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavradas,
Aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de fiados.
Mas,de repente,um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.

                                                                - Miguel Torga -
 Barragem de Vilarinho da Furna, 18 de  Julho de 1976




E assim foi-se embora, o homem e suas crianças!

"Assim, a natureza, mesmo ferida, supera o homem, porque, ainda que o homem atinja a natureza no seu âmago, fazendo-a tombar, tombará primeiro o homem nesse derrube, e depois de extinta a sua espécie mudará a natureza ainda de muitas formas e por muitas e muitas gerações, antes que possamos sequer ousar imaginar o seu fim. Por isso, a formidável audácia humana de lhe laquear os rios com barragens apenas contribui para engrandecer a lenda titânica da sua força, já que os homens sabem bem que tais barragens acabarão por soçobrar, arrancadas pelos rios ou pelo tempo como as patéticas linhas e estacas que procuravam aprisionar os movimentos de Gulliver.(....)"
                                                                              
                                                         Rio Homem - André Gago
                                                       ( Um romance que aconselho a lerem )



02/02/2012

À minha melhor amiga!

As irmãs são as pessoas em quem 
testamos as nossas fúrias e alegrias,
as pessoas que nos ensinam o que é a justiça,
a cooperação, a bondade e o carinho
( muitas das vezes da maneira mais difícil ),
e uma pessoa que não precisa
de ser perfeita para nós a amarmos.

                                                                                                                      Pamela Dugdale



Querida irmã:

Obrigada por me escutares estes anos todos, por me dares sempre o teu ombro amigo e aquele sorriso tão doce como sempre soubeste fazê-lo!

A melhor prenda  dos nossos pais até hoje, não foi o meu primeiro peluche, não foi o meu primeiro bebé chorão, não foi o meu primeiro livro ( Botão de Rosa ), nem mesmo o melhor par de sapatos, ou o melhor vestido!

A melhor prenda que os nossos pais me podiam ter dado, era uma irmã!!
E aqui estás, passado 22 primaveras, a florir a minha vida como um recheado e colorido canteiro de lírios :)

Graças a ti, não seria possível respirar recentemente os ares das montanhas, que tanto me fazem falta, e que apesar de não partilhares dos mesmos prazeres, bem me compreendes!


Foi graças a ti, que pude finalmente e mais uma vez :

Tocar nas verdes árvores, carregadas de musgo!


















Rever as pedras graníticas do meu Gerês!













Nas suas formas mais curiosas...
















Deliciar-me com a sua água verde e cristalina!












Rodeada de uma imensidão de paisagens e montanhas, cheias de energia positiva que me alimentam o corpo e a alma!!



Onde tive momentos  também de fraqueza... e descansei...



Mas todo este cansaço e fraqueza são apenas mais uma etapa das nossos vidas, e como sempre momentos há que nos erguemos e quase chegámos ao topo!!


Em que tal não seria possível sem a minha grande companhia!



Os curtos momentos de felicidade não faziam sentido, se não tivessemos alguém com quem partilhar o momento presente, alguém que de certa forma nos ajuda a estar por cima dos obstáculos!




Alguém que descobre connosco a desejada fonte, à muito procurada!


E nada melhor como rever os momentos mágicos em que passamos juntos...






De conhecer novos prados...
















De rever outros...














De beijar as pedras...


 De poder sentar-me ao lado e no meio delas!



Gostaria muito que um dia, nem que fosse só por um dia, pudesses presenciar o que os nossos olhos alcançam, aqui no topo das montanhas, onde adoraria te levar...nem que seja só por uma vez  de muitos dias que teremos pela vida fora!!

Aqui minha irmã, irás perceber ainda melhor o que sinto todas as vezes que piso o solo granítico do meu Gerês, aquele em  que penso quando fecho meus olhos, só e apenas para relaxar...




Não penses que é só pedra e rochas nesta terra abençoada!!



Também há verde!!!













Muito verde!!!!




Esculturas de gelo!!


Há vida!! Muita vida, que enche os nossos pulmões de ar, bombeia as nossas veias de sangue e sente-se o pulsar do coração, por vezes bem forte e que no meu caso.... nem me faz mal, muito pelo contrário!! Ele fica mais resistente!!!










E apesar de  ser  Inverno, conseguimos  sempre encontrar pequenos jardins e alguma cor, aqui na serra!














E no final mana, podemos ver o sol a deitar-se nestas imponentes montanhas!! No final os nossos corpos estão quebrados, suados e sujos de poeira serrana, por vezes alguns arranhões também, mas te digo é uma sensação de leveza corporal e espiritual que não há palavras para descrever, só sentindo! 


Mais uma etapa da minha vida a ser percorrida e que  tanto me está a custar neste momento, mas graças a ti minha irmã está sendo muito mais fácil,  e graças a ti este dia ajudou a  preencher a minha pessoa que por segundos parecia perdida!  Obrigada!


E que a vida te receba, sempre com um sorriso tão lindo como o teu!!



Uma irmã sorri quando lhe contamos as nossas histórias...
pois ela sabe onde as adornámos com a fantasia.

                                                                                                                 Chris Montaigne