Querida vida curta:
Regressei finalmente à terra que tanto suspirava de saudades, o meu Gerês!
Comecei por fazer um percurso curto até ao deslumbrante poço azul e mergulhar nas suas águas frescas e relaxantes. Estava rodeado de vida! Os alfaiates patinavam aos pares, encaixados, um puro prazer dos bichinhos que contornavam o meu corpo não parecendo perturbados com a minha presença.
Mas antes disso, meus pés nus começavam por dar as boas vindas às pedras graníticas que calquei e à agua fria da pequena entrada estreita de acesso ao lago. Molhei minhas pernas até meio, meus braços, refresquei minha face com sede de tudo aquilo e quando quase tocava novamente na água cristalina, pousou em uma das minhas mãos uma pequena libélula de um lindo azul metalizado e ali teimou em ficar por uns largos bons momentos!! Senti como se um cumprimento caloroso de boas vindas se tratasse!!
Subiu sua alma e ficou, quem sabe, a flutuar nas nuvens que cobre o céu Geresiano, talvez a brincar nos lagos em forma de libélula ou a iluminar a noite da Serra em forma de estrela.
Iríamos nós passado uma dúzia de dias aproximadamente ao Camalhão, cumprir o prometido, mas com um vazio corporal constantemente presente de uma cadelinha montanheira, que apesar da sua curta vida canina, foi concerteza das mais preenchidas, completas e cheias de amor!
Peço-te vida curta, que transformes a nova vida de Kelly naquilo, que considero como ser humano, impossível: Uma felicidade completa!
Assim sendo, será possível não mais a mesma sofrer, poder manter-se sempre na sua Serra do Gerês,onde tantas vezes correu saltou e se deliciou nas águas frescas dos ribeiros?! Será pedir-te muito?
Quem sabe sob a forma de libélula ou borboleta solta com o vento onde assim será possível partilhar a sua felicidade com outros seres vivos, num ser humano, por exemplo, onde poderá pousar numa mão amigável e merecedora da sua visita, tornando essa pessoa um pouco mais alegre e feliz!!
Afinal a vida destes insectos é curta...muito curta...e tudo se repetirá de uma ou outra forma, de uma outra maneira, intensamente, neste paraíso ou inferno chamado Terra, chamado vida! Longa, pequena ou curta.
E depois de cumprido o prometido e de sentir o vento do prado do Camalhão após um belo diálogo de amizade desfrutado, despedi-me de Angel, deixando-a consigo e sua doce pessoa, perdida e encontrada na sua sempre adorada serra. Segui vale fora em passo de corrida, saltei as pedras do rio, refresquei minha cara, molhei os lábios, olhei em volta e só aí mesmo caí realmente em mim! Reparei que estava ali completamente só, num vale rodeado de montanhas, numa outra dimensão, noutro mundo...nesta vida pequena vida tão curta e preciosa, em que a maior parte das pessoas correm tanto que nem se apercebem das montanhas que as rodeiam! Procuram cegamente a riqueza monetária, sem repararem que a verdadeira riqueza nesta vida, está ao alcance de todos da forma mais simples, pura e bela riqueza!!
Continuando a percorreu aquele precioso chão coberto de vida e rodeado da mesma, senti um enorme desejo de ali ficar, senão agora, um dia e para sempre! Ámen!
Mas por enquanto não podia, tinha amigos, família e uma Vida à minha espera!
Desci ofegadamente a encosta do Arado, de lá já se ouvia ao longe a presença da gente que por lá passa e daqueles que me esperavam. E minha serra começava a ser também absorvida por tudo aquilo, desligando-se de mim naquele momento vendo-me partir.
A partir daqui, prometi a mim mesma ficar com ela mais vezes sozinha, quando for possível, quantas as que forem possíveis nesta minha vida.
Até lá aguardarei pacientemente como uma semente em estado lactente à espera de florir, radiar luz, cor e sorrir, vivendo ao máximo a minha curta vida de Lírio do Gerês!